segunda-feira, 25 de março de 2013

Marcha em Favor do Casamento Marcada para Próxima Semana em Washington DC


Austin Ruse
Washington DC, EUA, 22 de março (C-FAM) Boa parte do mundo olha para os Estados Unidos em busca de direção em questões de políticas sociais. A realidade do aborto legal nos EUA tem sido um exemplo que outros países têm continuado a imitar.
O casamento é a questão social mais recente de campo de batalha nos EUA e em muitas partes do mundo. Por isso, todos os olhos não só nos EUA, mas também nos mundo inteiro estão voltados para o Supremo Tribunal em 26 de março quando haverá uma audiência em Washington DC.
Os que defendem o casamento tradicional estão se reunindo em Washington DC na próxima terça-feira para participar da primeira Marcha em Favor do Casamento organizada principalmente pela Organização Nacional do Casamento, mas que está trabalhando com mais de dez grupos dos EUA (C-FAM, que publica o Friday Fax, é um dos patrocinadores da marcha).
Os organizadores esperam que multidões de muitos milhares se ajuntarão para ouvir mais de dez palestrantes, inclusive o Prof. Robert George da Universidade de Princeton, Penny Nance, presidente de Concerned Women for America, o arcebispo Salvatore Cordileone de São Francisco, o Rev. Bill Owens da Coalizão de Pastores Afro-Americanos e muitos outros.
Os organizadores estão bem cientes de que uma campanha política nacional foi desencadeada pelos ativistas homossexuais e tem como alvo direto nove membros do Supremo Tribunal e principalmente o juiz Anthony Kennedy que é visto por muitos como um voto ambivalente entre juízes esquerdistas e conservadores. Os líderes da marcha esperam que seus esforços repercutirão no tribunal, embora entendam que nesse esforço eles tenham gasto muito mais do que podem.
O ativismo homossexual está de forma sistemática e barulhenta defendendo sua causa. Parece que todo dia aparece algo novo que a mídia nacional submissamente traz em seus noticiários. Um dia foi 100 líderes republicanos que assinaram um depoimento de amicus curiae em favor do casamento de mesmo sexo. Outro dia foi o conservador político e estrela do cinema Clint Eastwood anunciando que favorece uma mudança na lei. Outro dia ainda foi o senador republicano Rob Portman anunciando sua mudança de pensamento, seguido — o que não foi surpresa — por Hillary Clinton dizendo a mesma coisa.
Alguns especialistas dizem que essa campanha nacional da mídia mirada no Supremo Tribunal não tem precedentes na história americana.
O tribunal decidirá duas questões nesta primavera. Uma é se os cidadãos da Califórnia estavam dentro de seus direitos de definir por referendo que o casamento é entre um homem e uma mulher. A outra questão é se a Lei de Defesa do Casamento, que foi aprovada pelo Congresso e assinada pelo presidente Clinton e que define o casamento entre um homem e mulher para propósitos de programas federais, é constitucional ou não.
O tribunal poderia decidir apertadamente cada caso e deixar a decisão final para os estados individuais. O tribunal, porém, poderia tornar o casamento homossexual uma questão constitucional e forçá-lo em todos os estados dos EUA, inclusive os 41 que já decidiram que o casamento é apenas para homens e mulheres.
Se o tribunal permitir o casamento homossexual, pode estar certo de que a mesma coisa vai acontecer em países do mundo inteiro, pois o exemplo dos EUA é poderoso.
Tradução: www.juliosevero.com
Fonte: C-Fam

A pobreza de São Francisco muitas vezes é mal interpretada, explica sacerdote norte-americano


DENVER, 25 Mar. 13 / 12:44 pm (ACI/EWTN Noticias).- A preocupação  de São Francisco de Assis com a pobreza era secundária em sua vida e resultou da sua confiança absoluta no amor por Deus, explicou o padre o  padre Dominicano Augustine Thompson ao grupo ACI no dia 21 de março.

"A imagem usual de Francisco e de pobreza está desvirtuada ... a pobreza é importante, mas é secundária para Francisco, que vivia a dependência absoluta de Deus," disse o sacerdote em Berekeley, estado da Califórnia, EUA.

Segundo o dominicano, enquanto muitos associam o santo do século 13 com a pobreza, ele mesmo escreveu pouco sobre isso, e quando o fez, estava apontando para a humildade que vemos na Encarnação e morte de Cristo.

"A única vez que ele fala sobre a pobreza em si - ele menciona muito raramente em seus próprios escritos - ele oferece como o exemplo perfeito de pobreza o fato que a segunda pessoa da Santíssima Trindade se tornou um ser humano e assumiu a humildade da condição humana, e então se ofereceu na cruz, e oferece seu corpo para nós na Eucaristia".

"A Eucaristia e a pobreza de São Francisco são duas partes de uma mesma coisa", disse o padre Thompson, autor do livro : "Francisco de Assis: Uma Nova Biografia" lançado em 2012.

Embora dedicado ao serviço aos mais pobres dos pobres, São Francisco também "vê a Eucaristia como digna do máximo respeito, como ele próprio disse: o maior ato de humildade e pobreza é quando Deus se dá como alimento para as pessoas comuns."

Assim, o santo "tinha opiniões muito fortes" sobre "a celebração adequada" damissa, e também "estava preocupado que os cálices, corporais e panos de altar fossem adequados e bonitos."

Antes de ver-se ofendido pelo uso de materiais preciosos na celebração  da Missa e adoração da Eucaristia, São Francisco, na verdade, queria garantir que seus frades tivessem vasos litúrgicos de prata para oferecer aos sacerdotes "que não tivessem coisas mais adequadas para manter a Eucaristia dentro".

Pe. Thompson explicou que "não há evidências em nenhum lugar dos primeiros escritos sobre Francisco, ou em qualquer um de seus próprios escritos, que ele foi criticado pelo papado por ter grandes edifícios, por exemplo. Suas ideias sobre a pobreza não são políticas nesse sentido, e elas são muitas vezes representadas desta maneira hoje em dia".

Foi neste contexto que o padre Thompson explicou como ele entendeu comentário do Papa Francisco aos representantes da mídia no dia 16 março, dizendo: "como eu gostaria de uma Igreja pobre  para os pobres."

"Eu acho que é sua brilhante opinião sobre o título de "servus servorum Dei".

Este título atribuído aos Papas - geralmente traduzido como "servo dos servos de Deus" - originou-se com São Gregório Magno, em torno do ano 600. Padre Thompson acrescenta ainda que a melhor tradução de "servus" é o termo mais radical "escravo".
"O escravo é o mais pobre, é o mais baixo que se pode chegar, e os cristãos, não se importam com os seus recursos materiais, pois são chamados a ser, em última análise, escravos de Deus. São Paulo diz isso, que a liberdade vem de ser um escravo de Cristo", declarou.

"É assim que eu acho que o Papa Francisco entende a pobreza, e ele quer ser escravo dos escravos de Deus. Ele está usando o estilo de linguagem- franciscana, mas eu acho que é apenas um brilho sobre a forma como ele entende um dos títulos papais".

"Eu não acho que isso signifique coisas do tipo: ‘ele vai vender as coleções de arte do Vaticano’, mas eu suspeito que vai se sentir muito desconfortável por viver em um edifício construído pelos Papas do Renascimento".

O padre Thompson concluiu que "se há alguma coisa sobre a vida inteira do Papa Francisco que se ressalta, é a sua tentativa de colocar-se a serviço dos outros, e que também se expressa em sua vida de simplicidade".

O que pensa o Papa Francisco sobre…



O MUNDO E A FÉ SEGUNDO O PAPA FRANCISCO
REVISTA VEJA  - 20 de março de 2013 – edição 2313 – ano 46 – n°12, pgs. 70/71
Como arcebispo de Buenos Aires, o novo pontífice refletiu com clareza sobre questões fundamentais do cotidiano
CRENÇA
A Igreja defende a autonomia das questões humanas. Uma autonomia saudável é uma laicidade saudável, em que se respeitam as diferentes competências. A Igreja não vai diz, aos médicos como devem realizar uma operação. O que não é bom é o laicismo militante, aquele que toma uma posição antitranscendental ou que o religioso não saia da sacristia. A Igreja dá os valores, e os outros que façam o resto.
DEUS
“Ao homem de hoje lhe diria que faça a experiência de entrar na intimidade para conhecer a experiência, o rosto de Deus. Por isso me agrada tanto o que disse Jó depois de sua dura experiência e de diálogos que não lhe esclareceram nada: ‘Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com meus próprios olhos’. Ao homem, digo que não conheça a Deus de ouvidos. O Deus vivo é aquele que se vê com seus olhos, dentro de seu coração.”
DIVÓRCIO
“A discussão em torno do divórcio é diferente daquela do matrimônio de pessoas do mesmo sexo. A Igreja sempre repudiou a lei do divórcio, mas há antecedentes antropológicos distintos neste caso. (…) É um valor muito forte no catolicismo o casamento até que a morte os separe. Hoje, contudo na doutrina católica, lembra-se a seus fiéis divorciados e recasados que eles não estão excomungados – ainda que vivam em uma situação à margem do que exigem a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do matrimônio – e é pedido a eles que participem da vida paroquial.”
ABORTO
“O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa. No momento da concepção está o código genético da pessoa. Ali já existe um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer – concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético. Abortar é matar alguém que não pode se defender.”
ATEÍSMO
“Quando eu me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questões humanas, mas não coloco logo de cara em discussão a questão de Deus, exceto se elas me incitam a isso. Quando isso ocorre, eu explico a elas por que creio. (…) Não pretendo fazer proselitismo – eu as respeito e me mostro como sou. (…) Não tenho nenhum tipo de reticências. Não diria que um ateu está condenado porque estou convencido de que não tenho o direito de julgar sua honestidade – sobretudo se ele tiver virtudes, aquelas que engrandecem as pessoas. De toda forma, conheço mais gente agnóstica do que ateia. O agnóstico duvida; o ateu está convencido. Temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bíblia: todo homem é a imagem de Deus, seja ele crente ou não. Por essa única razão, tem uma série de virtudes, qualidades, grandezas. Caso tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos compartilhá-Ias para nos ajudarmos mutuamente a superá-Ias.”
CIÊNCIA
“A ciência tem sua autonomia, que deve ser respeitada e encorajada. Não se deve interferir na autonomia dos cientistas. Exceto se extrapolarem seu campo de atuação e se envolverem com o transcendente. A ciência é fundamentalmente instrumento do mandato de Deus, que disse: ‘Tenham muitos e muitos filhos, espalhem-se por toda a terra e a dominem’. Dentro de sua autonomia, a ciência transforma a incultura em cultura. Mas cuidado: quando a autonomia da ciência não põe limites a si mesma e vai além, ela pode sair das mãos de sua própria criação. É o mito de Frankenstein.”
IGREJA
“Uma coisa boa que aconteceu com a Igreja foi a perda dos Estados Pontifícios, porque deixa claro que a única posse do papa é meio quilômetro quadrado. Mas, quando o papa era rei temporal e rei espiritual, aí se misturavam as intrigas de corte e tudo isso. Agora não se misturam? Sim, ainda existe isso, porque existe ambição em homens da Igreja, existe – lamentavelmente – pecado de carreirismo. Somos humanos e nos tentamos, temos de estar muito atentos para cuidar da unção que recebemos, porque ela é um presente de Deus. As disputas pelo poder, que existiram e existem na Igreja, se devem a nossa condição humana. Mas, nesse momento, a pessoa deixa de ser eleita para o serviço e se converte em uma pessoa que escolhe viver como quer e se mistura com o lixo interior.”
“Um líder religioso pode ser muito forte, muito firme, mas isso sem exercer a agressão. Jesus disse que aquele que manda deve ser como aquele que serve. Para mim, essa ideia é válida para a pessoa religiosa de qualquer credo. O verdadeiro poder de uma liderança religiosa vem de seu serviço. Quando deixa de servir, o religioso se transforma em um mero gestor, em um agente de ONG. O líder religioso compartilha, sofre, serve a seus irmãos.”
PEDOFILIA
“Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia se dão no entorno familiar e na vizinhança: avôs, tios, padrastos e vizinhos. O problema não está vinculado ao celibato. Se um padre é pedófilo, ele o é antes de ser padre. Agora quando isso ocorre, jamais se deve fazer vista grossa. Não se pode estar em uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. (…) Não creio em posições que pleiteiam sustentar certo espírito corporativo para evitar danos à imagem da instituição. Esta solução creio que foi proposta certa vez nos Estados Unidos: mudar os padres de paróquia. Isso é uma estupidez porque, dessa forma, o padre leva o problema na bagagem. A reação corporativa leva a tal consequência, por isso não concordo com essas medidas. Recentemente, na Irlanda, foram revelados casos após vinte anos, e o papa disse claramente: ‘Tolerância zero com este crime’. Admiro a valentia e a retidão de Bento XVI sobre esse assunto.”
TENTAÇÃO
“A vida cristã também é uma espécie de atletismo, de disputa, de corrida, em que é preciso se desvencilhar das coisas que nos separam de Deus. Além disso, quero salientar que uma questão é o demônio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem está sob tentação constante, mas não é por isso que remos de demonizá-lo.”
UNIÃO HOMOSSEXUAL
“Não sejamos ingênuos: não se trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus.”
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O padre biblista Matteo Crimella fala sobre o livro Sobre el cielo y la tierra, escrito a quatro mãos pelo então arcebispo de Buenos Aires,Bergoglio, e pelo rabino Skorka

O artigo foi publicado no sítio Missionline, 16-03-2013. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Entre os muitos dons que o Senhor me deu, um deles se destaca sobre todos: eu vivi por nada menos do que seis anos em Jerusalém, debruçado sobre os textos do Antigo e do Novo Testamento, observando e medindo com os meus olhos cada pedra da cidade santa. Para uma pessoa curiosa e apaixonada por livros, Jerusalém é um paraíso: há lugares (muitas vezes simples porões muito desordenados) onde se encontra todo tipo de livros, em todas as línguas do mundo. 

Nos anos em que eu vivia na cidade santa, eu me permitia a satisfação de uma visita às livrarias, sem nunca me decepcionar. No verão passado, o livreiro (um sorridente judeu de origem polonesa) me informou que haviam recém-esvaziado o apartamento de um professor de língua espanhola.

Eu desci na grande loja e olhei intrigado, mas só encontrei um livro que me interessava, Sobre el cielo y la tierra, escrito a quatro mãos pelo arcebispo de Buenos AiresBergoglio, e pelo rabino-chefe da cidade,Skorka (Jorge Bergoglio Abraham SkorkaSobre el cielo y la tierra, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2010, 220 páginas).
Olhei o índice, li a contracapa, descobrindo que ambos haviam estudado química, passei pelo primeiro capítulo intitulado “Sobre Dios” e decidi comprá-lo. No dia 13 de março à noite, depois do habemus papam, fui pescá-lo novamente na minha biblioteca e li-o de uma vez só.

O livro reúne os diálogos que ocorreram entre o cardeal e o rabino a propósito de vários temas: Deus, os ateus, as religiões e o seu futuro, os discípulos, a oração, o pecado, a morte, a mulher, o aborto, a educação, a política, o dinheiro, o Holocausto, o diálogo inter-religioso, em um total de 29 breves capítulos nos quais os dois discutem. 

Na introdução, o rabino afirma que o diálogo é um exercício em que “a alma de um se reflete na do outro”. Além disso, evocando um baixo-relevo no frontispício da Catedral Metropolitana de Buenos Aires, que representa o abraço de José, vice-rei do Egito, com os seus irmãos, o líder da comunidade hebraica reafirma o valor da “cultura do encontro”. De fato, no diálogo, cada um é ele mesmo, o cardeal com a sua identidade católica, e o rabino com judaica, mas juntos se confrontam e se enriquecem mutuamente.

O que emerge daí? Bergoglio fala de si, do seu encontro com Deus, Ele não esconde ter feito um itinerário marcado por luzes e sombras, passando por consolações e desolações (segundo uma linguagem tipicamente inaciana e, portanto, jesuítica). Afirma: “Minha experiência de Deus se dá no caminho, na busca, no deixar-me buscar”. A partir desta experiência tão intensamente pessoal, Bergoglio olha para o mundo.

A propósito dos ateus, ele diz: “Quando me encontro com pessoas ateias, compartilho as questões humanas, mas não lhes proponho de entrada o problema Deus, exceto no caso em que elas me o proponham. Se isso ocorre, eu lhes conto por que eu acredito. Mas o humano é tão rico para compartilhar, para trabalhar, que tranquilamente podemos complementar mutuamente as nossas riquezas. Como sou crente, sei que essas riquezas são um dom de Deus”. 

Skorka, referindo-se ao pensamento de Maimônides, ecoa a sua afirmação dizendo: “Podemos conhecer suas fórmulas [da perfeição da natureza], mas não a sua essência”. Bergoglio continua: “Creio que quem adora a Deus tem, nessa experiência, um mandato de justiça para com seus irmãos. É uma justiça sumamente criativa, porque inventa coisas: educação, promoção social, cuidado, alívio etc. Por isso, o homem religioso íntegro é chamado de homem justo, leva a justiça para os demais. Nesse aspecto, a justiça do religioso ou da religiosa cria cultura. Não é a mesma coisa a cultura de um idólatra que a cultura que uma mulher ou um homem que adoram o Deus vivo criam.(…) Hoje, por exemplo, temos culturas idólatras em nossa sociedade: o consumismo, o relativismo e o hedonismo”.

A centralidade do mistério de Deus e da relação com ele surge quando o cardeal reflete sobre os líderes religiosos: “Os grandes líderes do povo de Deus foram homens que deixaram lugar à dúvida. (…) Moisés é o personagem mais humilde que houve sobre terra. Diante de Deus, não resta nada mais do que a humildade, e aquele que quer ser líder do povo de Deus tem que dar espaço a Deus; portanto, apequenar-se, esvaziar a si mesmo com a dúvida, com as experiências interiores de escuridão, de não saber o que fazer. (…) Uma das características do mau líder é ser excessivamente prescritivo pela autossegurança que tem”. 

O rabino ecoa a sua afirmação sem qualquer problema: “A própria fé [judaica] deve se manifestar por meio de um certo sentimento de dúvida. (…) Posso ter 99,99% de certeza sobre Ele [Deus], mas nunca 100%, porque vivemos buscando-O”.

Bergoglio demonstra ser um homem muito aberto, mas ao mesmo tempo têm ideias claras sobre a Igreja. Ele se distancia fortemente daqueles que gostariam de reduzi-la a uma agência social: “Eu acredito que [a liderança] de uma congregação [religiosa] não pode se assimilar à de uma ONG. Em uma ONG, a palavra santidade não entra. Deve haver, sim, um comportamento social adequado, honestidade, uma ideia de como ela vai levar adiante a sua missão, uma lógica para dentro. Pode funcionar dentro da sua laicidade. Mas, na religião, a santidade é inevitável em seu líder”.

São muitas as referências à experiência pastoral do arcebispo de Buenos Aires. A propósito da formação dos candidatos ao sacerdócio, o cardeal recorda as escolhas feitas na sua diocese, mas o pensamento vai mais longe: “Nós aceitamos no seminário, aproximadamente, somente cerca de 40% dos que se postulam. (…) Por exemplo, existe um fenômeno psicológico: patologias ou neuroses que buscam seguranças externas. Há alguns que sentem que, por si mesmos, não vão ter êxito na vida e buscam corporações que os protejam. Uma dessas corporações é o clero.

Com relação a isso, estamos com os olhos abertos, tentamos conhecem bem as pessoas que demonstram interesse, fazemos testes psicológicos com elas em profundidade antes que ingressem no seminário. Depois, na consciência de um ano prévia ao ingresso, durante todos os fins de semana, vai-se vendo e se discerne entre as pessoas que têm vocação e aquelas que, na realidade, não são chamadas, mas buscam um refúgio ou se equivocam na percepção da vocação”.

Um dos pontos mais tocantes do diálogo é quando o rabino e o bispo tocam no tema da oração. “A oração deve servir para unificar o povo, é um momento em que todos dizemos exatamente as mesmas palavras”: é assim que o rabino Skorka inicia o seu discurso sobre uma realidade tão pessoal que é difícil discutir a respeito publicamente, talvez até mesmo articular algumas palavras. 

Bergoglio está em sintonia: “Rezar é um ato de liberdade”. E continua: “A oração é falar e ouvir. Há momentos que são de profundo silêncio, ´de adoração, esperando que o tempo passe”. Depois, ele cita o exemplo deAbraão, que intercede por Sodoma Gomorra, e de Moisés que reza pelo povo.

Sobre os tradicionalistas (os lefebvrianos têm um seminário e algumas igrejas na Argentina) o juízo de Bergoglio é claro: ele define os “pequenos grupúsculos restauracionistas” como “fundamentalistas”, e acrescenta: “Esse tipo de religiosidade, muito rígida, se disfarça com doutrinas que pretendem dar justificações, mas, na realidade, privam da liberdade e não deixam que as pessoas cresçam. Em grande parte, terminam na vida dupla”.

Quando o discurso aborda as grandes ideologias do século XX, o cardeal é explícito: “O cristianismo condena com a mesma força tanto o comunismo quanto o capitalismo selvagem. (…) Um exemplo claro é o que acontece com o dinheiro que foge para o exterior. O dinheiro também tem pátria, e aquele que explora uma indústria no país e leva o dinheiro embora para guardá-lo fora está pecando. Porque não honra com esse dinheiro o país que lhe dá a riqueza, o povo que trabalha para gerar essa riqueza”. E acrescenta, a propósito da lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas: “Não se pode aceitar o dinheiro manchado com sangue”. 

Significativa é a passagem sobre a riqueza da Igreja: “Sempre se fala do ouro do Vaticano, mas isso é um museu. Também é preciso distinguir o museu da religião. Uma religião precisa de dinheiro para manejar as suas obras, e isso se faz através de instituições bancárias, não é ilícito. (…) O que entra em doações ou por visitas a museus vai para leprosários, para escolas, para comunidades africanas, asiáticas, americanas”. Mas, depois, lembrando o martírio de São Lourenço e a sua defesa dos pobres de Roma, ele afirma: “Os pobres são o tesouro da Igreja e é preciso cuidá-los; e se não temos essa visão, construiremos uma Igreja medíocre, morna, sem força”.

O diálogo entre um rabino e um cardeal não podia não tocar nas relações entre judeus e cristãos, e a tragédia do Holocausto. A esse propósito,Bergoglio reitera a doutrina do Vaticano II: “Efetivamente, não se pode falar de um povo deicida”. Mas, depois, com a franqueza extrema, admite que na Argentina há alguns eclesiásticos antissemitas, mas declara resolutamente: “Hoje a política da Igreja argentina é clara: diálogo inter-religioso”.

Sobre o futuro das religiões, o olhar prospectivo afunda suas raízes na história: “Se olharmos para a história, as formas religiosas do catolicismo variariam notoriamente. Pensemos, por exemplo, nos Estados Pontifícios, onde o poder temporal estava unido ao poder espiritual. Era uma deformação do cristianismo. Não correspondia ao que Jesus quis e ao que Deus quer. Se, ao longo da história, a religião teve tanta evolução, por que não pensar que, em um futuro, ela também se adequará com a cultura do seu tempo? O diálogo entre a religião e a cultura é chave, já afirmava oConcílio Vaticano II. Desde o princípio pede-se da Igreja uma contínua conversão – Ecclesia semper reformanda – e essa transformação adquire diversas formas ao longo do tempo, sem afetar o dogma”.